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Paródia Paráfrase

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TEXTO 1

      Índia

      Índia, seus cabelos nos ombros caídos,

      Negros como a noite que não tem luar;

      Seus lábios de rosa para mim sorrindo

      E a doce meiguice desse seu olhar

      Índia da pele morena,
Sua boca pequena

      Eu quero beijar.

      Índia, sangue tupi,

      Tem o cheiro da flor

      Vem, que Eu quero lhe dar

      Todo meu grande amor.

      Quando Eu for embora para bem distante,

      E chegar a hora de dizer-lhe adeus,

      Fica nos meus braços só mais um instante,

      Deixa os meus lábios se unirem aos seus.

      Índia, levarei saudade

      Da felicidade

      Que você me deu.

      Índia, a sua imagem,

      Sempre comigo vai;

      Dentro do meu coração,

      flor do meu Paraguai!

      (J. A. Flores, M. O. Guerrero e José Fortuna. Sucessos inesquecíveis de Cascatinha e Inhana. Phonodisc, 1987.)

TEXTO 2

      Além, muito além daquela serra, que ainda azula no horizonte, nasceu Iracema.

      Iracema, a virgem dos lábios de mel, que tinha os cabelos mais negros que a asa da graúna, e mais longos que seu talhe de palmeira.

      O favo da jati não era doce como seu sorriso; nem a baunilha recendia no bosque como seu hálito perfumado.

      Mais rápida que a ema selvagem, a morena virgem corria o sertão e as matas do Ipu, onde campeava sua guerreira tribo, da grande nação tabajara. O pé grácil e nu, mal roçando, alisava apenas a verde pelúcia que vestia a terra com as primeiras águas.

      Um dia, ao pino do sol, ela repousava em um claro da floresta. 1...]

      Rumor suspeito quebra a harmonia da sesta. Ergue a virgem os olhos, que o sol não deslumbra; sua vista perturba-se.

      Diante dela e todo a contemplá-la, está um guerreiro estranho, se é guerreiro e não algum mau espírito da floresta. Tem nas faces o branco das areias que bordam o mar; nos olhos o azul triste das águas profundas. Ignotas armas e tecidos ignotos cobrem-lhe o corpo.

      (José de Alencar. Iracema. São Paulo: Moderna, 1984. p. 11-2.)

TEXTO 3

      A índia e o traficante

      Noite malandra, um luar de espelho,

      No meio da terra a índia colhe o brilho,

      Som de suor, cheirada musical,

      Palmeira que se verga em meio ao vendaval.

      Sentia macia floresta,

      Bolívia, montanha, seresta...

      Índia “guajira” já colheu sua noite

      Volta para a tribo meio injuriada,

      Uma figueira numa encruzilhada

      Felina, um olho de paixão danada,

      Era Leão, famoso traficante,

      Um outdoor, bandido elegante,

      Que a levou para um apart-hotel

      Que tem em Cuiabá.

      Índia, na estrada, largou a tribo

      Comprou um vestido, aprendeu a atirar,

      Índia virada, alucinada pelo cara-pálida do Pantanal,

      Índia “guajira” e o traficante

      Loucos de amor, trocavam o seu mel,

      Era um amor tipo 45,

      E tiroteios rasgando vestidos,

      Em quartos de motel.

      Explode o amor, adiós para o pudor,

      “Guajira” e o traficante passam a escancarar,

      Rolam papéis, nos bares, nos bordéis,

      Os dois de Bonnie and Clyde, assunto dos cordéis,

      Maíra, pivete, amazônia,

      Esqueceu Tupã, a sem-vergonha...

      Dentro de um “Cessna”, bebendo “champagne”

      Leão e seu bando a fazem sua chefona

      Índia fichada, retrata falada,

      A loto esperada pelos federais,

      Mas ela gosta de fotografia

      E vira capa dos jornais do dia,

      Enquanto espera uma tonelada da pura alegria.

      Índia, sujeira, foi dedurada

      Por um sertanista que era amigo seu,

      Índia traída — “mim tô passada” —

      Ela lamentava num mau português.

      A Índia, deu um ganho, num Landau negro,

      Chapa oficial, que era da Funai,

      Passou batido pela fronteira,

      Uma rajada de metralhadora...

      Morta no Paraguai!

      (Eduardo Dusek e Luiz Carlos Góes. LP Dusek na sua. PolyGram, 1986.)
PARÁFRASE

      Do grego para-phrasis (repetição de uma sentença), a Paráfrase imita o original, in­clusive em extensão. Assim, parafrasear um texto é repeti-lo com outras palavras, mas sem alterar suas idéias.

      Para produzir uma Paráfrase, portanto, é preciso seguir as idéias do texto original, reproduzindo-as de outra maneira, mesmo que de forma resumida. O texto 1 (Índia) é

      uma Paráfrase do texto 2, de José de Alencar, produzido anteriormente àquele (no sécu­lo XIX), uma vez que repete a história de amor de uma índia meiga, bela e pura, compa­rando suas características físicas aos elementos da natureza. A diferença está na lingua­gem empregada — menos elaborada, na canção — e no foco narrativo (1ª e 3ª pessoas, respectivamente). Mantém-se, além da veneração pela mulher indígena, o amor poético daquele que vem de fora e lhe rouba o coração, partindo em seguida.

PARÓDIA

      A paródia é uma recriação de caráter contestador: ela mantém algo da significação do texto primeiro, mas constrói todo um percurso de desvio em relação a ele, numa espé­cie de insubordinação crítica que incomoda.

      Assim se comporta o texto 3, de Eduardo Dusek e Luiz Carlos Góes, que retoma o velho tema romântico do amor pela índia, interpretando-o às avessas: não há nenhum Romantismo ou beleza, não há mais tribo, e Tupã foi esquecido. Nesse exercício há algo de novo, de desafiador. Com todas as inversões efetuadas, ocorre um desmonte das idealizações tão difundidas pela literatura do século XIX, dando lugar a uma situação presente bem afastada do nacionalismo romântico (outdoor, apart-hotel, champagne, avião, droga e submundo). Nesse parodiar, mantém-se o romance com o estrangeiro, no caso um traficante, e, em vez do abandono da índia, como na história original, ocorre seu assassi­nato. A referência ao filme Bonnie and Clyde (casal de assaltantes famoso na década de 1930 nos Estados Unidos), entre outras coisas, realça a realidade contemporânea, tão dominada pela cultura americana, e torna ainda mais distantes as raízes nacionais que Iracema representa.

 

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