Nasci, cresci e envelheci entre livros. Poucos meses atrás, ao mudar de escritório, vi-me obrigado a doar uns 8 mil títulos a diversas bibliotecas. Não foi um ato de generosidade, mas de desespero: não tinha onde colocá-los. Mas não foi fácil. Gosto do cheiro dos livros, do contato com o papel e da estranha vida que eles dão aos cômodos e corredores. Sabia que jamais voltaria a abrir 95% desses livros, mas estavam ali, nas prateleiras, dispostos a servir-me a qualquer momento, e isso sempre conforta. Aliás, há mais de 30 anos, quando cheguei à Espanha, exilado, para ganhar a vida escolhi a profissão de editor. Era uma forma de misturar prazer e trabalho.
A declaração anterior tem um propósito muito claro. O que se segue foi escrito com bastante melancolia: os livros, como os conhecemos, estão acabando. Sei que no ano passado, só na Espanha foram editorados ou reeditados 62 mil títulos, mas isso não muda as coisas. É o canto do cisne.
Os livros de cartão, papel e tinta estão em sua etapa final. Serão substituídos pelos e-books. O que é isso? É uma tela leve, do tamanho e espessura de um livro convencional, que se alimenta de cartões eletrônicos capazes de conter uma assombrosa quantidade de informação. Em vez de empilhar - por exemplo - os 128 tomos da obra de Balzac numa estante empenada pelo tempo, todo esse material, "digitalizado" num CD-ROM do tamanho de um cartão de crédito, é inserido numa ranhura do e-book.
Aperta-se um botão e na tela surge um índice. Seleciona-se La Piel de Zapa ou Eugenia Grandet e aparece a primeira página. Quando se termina de lê-la, aperta-se um botão e se passa para a segunda ou para a 20.ª. Ou se volta à primeira. Com outro botão se podem fazer anotações, como em qualquer agenda eletrônica.
E até se pode ler à noite, deitado, sem acender a luz: basta a iluminação da tela. Uma biblioteca de 20 mil volumes pode ser arrumada numa prateleira de um metro de comprimento por 20 centímetros de largura. Contra essa imensa facilidade tecnológica, expressa em preço e espaço, não há amor ao livro capaz de resistir à investida.
Não é a primeira vez que o hábito de ler é sacudido por mudanças bruscas.
Durante séculos, os seres humanos escreveram em rolos, sobre folhas maceradas de papiro. Quando os egípcios - grandes produtores de papiro - proibiram a exportação desse material "estratégi-co" para certas cidades gregas, uma delas, Pérgamo, começou a curtir a pele dos carneiros para destiná-la a esse mister. Surgiu o pergaminho. Várias centúrias mais tarde, no século 4.º d. C., começou a popularizar-se outra forma de leitura: os códices, quase sempre escritos sobre pergaminho e encadernados como nossos livros. Houve então nostálgicos amantes dos rolos que quiseram resistir à inovação dos códices, mas as vantagens para a cópia, o transporte e o armazenamento dos novos livros eram imbatíveis. Para isso contribuiu também um inesperado fator psicológico: como os códices coincidiram com a expansão do Catolicismo, os rolos foram associados aos costumes pagãos. Isso contribuiu para liquidá-los.
A revolução seguinte ocorreu no século 8.º. As tropas árabes entraram em Samarcanda, então território chinês, e passaram pelo fio da faca quase todos os varões, mas deixaram vivos dois, que haviam despertado a curiosidade dos chefes. Eram os capatazes de uma estranha fábrica que transformava lã numa substância sobre a qual se podia escrever: era o papel, o nosso papel.
Desmontaram a maquinaria e a levaram com eles. Foi um alívio. Para copiar o Alcorão sobre pergaminho era necessária a pele de cem carneiros.
Quando Gutemberg aperfeiçoou a imprensa de tipos móveis - conhecida pelos coreanos 500 anos antes -, a indústria do papel já era importante na Europa.
Houve muita resistência à invenção do alemão por parte dos copistas, e principalmente da Igreja, que viu reduzir-se sua renda, pois uma das formas de obter indulgências para os defuntos era encomendar aos conventos - e pagar-lhes por isso boas quantias - cópias de belos livros religiosos, mas as vantagens que trazia o artefato eram impossíveis de derrotar. Em uma geração, todas as cidades européias de porte médio já tinham imprensa. Os velhos leitores, amantes dos textos manuscritos, queixaram-se com amargura da produção industrial, plebeiamente uniforme, mas o preço e a rapidez acabaram se impondo: os livros ficaram 20 vezes mais baratos.
Estamos numa nova era. A expressão cunhada "galáxia de Gutemberg" - o mundo surgido da revolução da imprensa - dará lugar à "galáxia dos e-books". A substituição da velha forma de ler durará várias décadas, mas paulatinamente se irá impondo. A venerável Enciclopédia Britânica - 30 volumes de informação precisa -, que me deu de comer quando Eu era estudante e a vendia de porta em porta, já não é impressa. É consultada por meio da Internet. É virtual. Como quase tudo neste milênio que começa.