Todos os dias, entre nove e dez horas da manhã, pode se ver sair a fila de negros a serem punidos; vão eles presos pelo braço, de dois em dois, e conduzidos sob escolta da polícia até o local designado pelo castigo, pois existem em todas as praças mais freqüentadas da cidade pelourinhos erguidos com o intuito de exibir os castigados, que são em seguida devolvidos à prisão. Aí o carrasco recebe o direito de pataca por cem chicotadas aplicadas.
De regresso à prisão, a vítima é submetida a uma segunda prova, não menos dolorosa: a lavagem das chagas com vinagre e pimenta, operação sanitária destinada a evitar a infecção do ferimento.
JEAN BAPTISTE DEBRET. Viagem Pitoresca e Histórica ao Brasil, de 1816 até 1831.
Trechos de uma entrevista
Entrevista concedida em 16 de junho de 1995 pelo professor Milton Santos, então titular da cadeira de Geografia Humana da USP, ao repórter Maurício Stycer, da Folha de São de Paulo.
Ex-professor da Sorbone (Paris), Columbia (Nova York) e Dar-es-Salaam (Tanzânia), Santos, 69, é hoje uma das mais respeitadas figuras de sua área no mundo. Em 1994, recebeu no França o prêmio Vautrin Lud, o Nobel de Geografia.
O prêmio é concedido a partir da indicação de 50 universidades espalhadas pelo mundo. Uma comissão internacional escolhe, entre os mais votados, o premiado.
Santos é negro, casado com uma francesa e pai de dois filhos.
Folha – O senhor já viveu na França, nos EUA, no Canadá, na Tanzânia. Qual é a especificidade do racismo brasileiro?
Santos – Aqui é natural os negros serem tratados de forma subalterna. Você não tem como reclamar. Se você protesta, é visto como alguém que está perturbando o "clima agradável" que possa existir nesse ou naquele lugar (...)
Folha – O senhor é maltratado?
Santos – Olhado com desconfiança. Parece que isso faz parte do ethos (caráter peculiar a determinado povo). A grande aspiração do negro brasileiro é ser tratado como um homem comum. (...)
Folha – Diversos negros bem-sucedidos que entrevistei tendem a considerar que a chave do sucesso é o esforço pessoal. O que o senhor acha?
Santos – Acho um enorme equívoco. Quando dizem isso, fazem um enorme mal à comunidade negra. Fica parecendo que para ficar milionário basta fazer esforço e que a questão pode ser tratada na base do voluntarismo. Neste finaldo século 20, quando a referência tem um papel evidente que certas formas de esforço são importantes e devem ser mostradas. Mas é importante mostrar também o mecanismo social que leva a isso.