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Heróis Anonimos

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Freqüentemente, a informação veiculada na mídia produz um travo na alma. A sociedade desenhada no noticiário parece refém do vírus da morbidez.

      Crimes, aberrações e desvios de conduta desfilam na passarela da imprensa. A notícia positiva, tão verdadeira quanto a informação negativa, é uma surpresa, quase um fato inusitado. Recentemente, no entanto, redescobrimos que a sociedade violenta não perdeu a capacidade de se comover com um instantâneo de grandeza moral.

      Há momentos na vida em que a dor e a injustiça não se esgotam num grito de revolta, mas se transformam em atos que elevam e dignificam. A ameaça a duas famílias que corriam o risco de ter de morar na rua impediu o tratorista Hamilton dos Santos de derrubar duas casas para cumprir uma ordem de reintegração de posse, no Bairro da Palestina, na periferia da capital baiana.

      Mesmo depois de receber voz de prisão dos policiais militares que acompanhavam o oficial de Justiça responsável pelo cumprimento da sentença, Hamilton não conseguiu acionar o trator para derrubar as casas, construídas ilegalmente no terreno de um empresário. Tentou ligar o motor, mas desistiu, diante do desespero das famílias, uma delas com sete crianças. Suas lágrimas paralisaram suas mãos.

      Pai de nove crianças e tão pobre quanto os excluídos que protegeu com sua desobediência solidária, Hamilton foi um exemplo de sensibilidade humana.

      Não obstante o direito do proprietário do terreno e o respeito que se deve às decisões da Justiça, o tratorista intuiu algo mais profundo: a vida não se pode esvair na frieza formal de uma sentença. A generosidade, a coragem e o amor ao próximo, que distinguem as almas nobres, foram o estopim da sua reação. Sensibilizado com o drama, um advogado prontificou-se a procurar o dono do terreno com o objetivo de encontrar uma forma amigável para solucionar o impasse. O episódio, comovente, foi destaque no Jornal Nacional. A opinião pública, habituada à síndrome de catástrofe e ao negativismo enfermiço que têm dominado alguns telejornais, percebeu que a solidariedade ainda pode ocupar o espaço de uma matéria.

      Infelizmente, de algum tempo para cá, alguns veículos de comunicação manifestam preocupante dependência de um fluxo de escândalos e sensacionalismo para se manter no negócio. Explorando o chamado jornalismo-verdade, arma-se um espetáculo com o que a natureza humana é capaz de produzir de mais sórdido e perverso. A miséria material e moral é transformada em instrumento de marketing. O que importa na fria contabilidade do jornalismo aético é um bom desempenho na circulação e nas pesquisas de opinião. Elevados índices de audiência são suficientes para acalmar eventuais escrúpulos morais.

      "Quando uma situação se corrompe, a primeira corrupção se dá na linguagem."

      A afirmação, do escritor Octavio Paz, pode ser comprovada diariamente. De fato, as idéias de tabu, repressão e Liberdade, habilmente manipuladas pelos profetas da "nova moral", exercem um autêntico patrulhamento comportamental.

      A mídia, argumentam os aguerridos defensores do jornalismo mundo-cão, retrata a vida como ela é. Teria, contudo, o cotidiano do brasileiro médio nada além de tamanhas e tão freqüentes manifestações de aberrações patológicas? Penso que não. Há uma evidente compulsão para pinçar os aspectos negativos da vida.

      Por mais que a sociedade tenha mudado, tenho a certeza de que o pretenso Realismo que se alardeia como justificativa para o excesso de violência e mau gosto que, diariamente, desaba sobre leitores e telespectadores não retrata a realidade vivida pela maioria esmagadora da população. Na verdade, ainda há muita gente que cultua os valores éticos, os quais dão sentido e dignidade ao ato de viver. Ainda há pessoas que, diante do vizinho doente, correm a socorrê-lo; e sofrem por uma criança abandonada; e estendem a mão a um amigo necessitado; e choram pelas vítimas de uma injustiça, como qualquer ser humano.

      Por isso, a reação do humilde tratorista, independentemente do suposto agravo à decisão judicial, iluminou o verdadeiro sentido da existência humana. Hamilton deixou um belo legado de coragem e solidariedade para seus filhos. E para nós, profissionais da mídia, mostrou que a grandeza humana bem vale uma matéria.

      Carlos Alberto Di Franco, diretor do Master em Jornalismo para Editores e professor de Ética Jornalística, é representante da Faculdade de Comunicação da Universidade de Navarra no Brasil. E-mail: difranco@ceu.org.br

      "A verdade verdadeira é que os heróis de fato não aparecem na tevê nem têm o seu nome inscrito no Livro dos Heróis da Pátria. Os heróis verdadeiros estão na ruas, nas fábricas, nas lavouras, nos ônibus, nas escolas, nas casas. Herói é o pai que trabalha 12 ou 14 horas por dia para dar de comer a sua família. Heroína é a mãe que, com o filho doente nos braços, anda quilômetros em busca de atendimento. Esses heróis vivem e morrem silenciosamente, não ganham homenagens nem estátuas. Muito menos têm um dia com seu nome. Os verdadeiros heróis não aparecem nos livros de História. Eles fazem a História".(Moacyr Scliar, escritor)

 

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