Elisabeth de M. Massaranduba e Thaís Montenegro Chinellato Introdução A descrição é um texto, literário ou não, em que predominam verbos de estado e Adjetivos que caracterizam pessoas, ambientes e objetos. É muito raro encontrarmos um texto exclusivamente descritivo. Quase sempre a descrição vem mesclada a outras modalidades, caracterizando uma personagem, detalhando um cenário, um ambiente ou paisagem, dentro de um romance, conto, crônica ou novela. Assim, a descrição pura geralmente aparece como parte de um relatório técnico, como no caso da descrição de peças de máquinas, órgãos do corpo humano, funcionamento de determinados aparelhos (descrição de processo). Dessa maneira, na prática, seja literária ou técnico-científica, a descrição é sempre um fragmento, é um parágrafo dentro de uma narração, é parte de um relatório, de uma pesquisa, de dissertações em geral. Mas o estudante precisa aprender a descrever; a prática escolar assim o exige. Geralmente pede-se u texto menor que a narração ou a dissertação. Um texto descritivo com aproximadamente 15 linhas costuma conter todos os aspectos caracterizados que permitam ao leitor visualizar o ser ou objetivo descrito. Para tanto, o observador deve explorar as sensações gustativas, olfativas, auditivas, visuais, táteis e impressões subjetivas. O que se descreve Podemos descrever o que vemos (aquilo que está próxima), o que imaginamos (aquilo que conhecemos mas não está próximo no momento da descrição) ou o que nossa imaginação cria, qualquer entid ade inventada: um ser extraterreno, uma mulher que você nunca viu, uma futurista, um aparelho inovador etc. Como se descreve De acordo com os objetivos de quem escreve, a descrição pode privilegiar diferentes aspectos: • pormenorização – corresponde a uma persistência na caracterização de detalhes; • dinamização – é a captação dos movimentos de objetivos e seres; • impressão – são os filtros da subjetividade, da atividade psicológica, interpretando os elementos observados. A organização da descrição No processo de composição de uma redação descritiva, o emissor seleciona os elementos organiza para levar o receptor a formar ou conhecer a imagem do objetivo descrito, isto é, a concebê-lo sensorial ou perceptualmente. A descrição é fundamentalmente espacial. Eventualmente pode aparecer um índice temporal, porém sua função é meramente circunstancial, serve apenas para precisar o registro descritivo. Observe como Vinícius de Morais descreve a casa materna, priorizando o espaço, mas situando-a num tempo subjetivo que só existe nas impressões interiorizadas da lembrança do observador: A casa materna Há, desde a entrada, um sentimento de tempo na casa materna. As grades do portão têm uma velha ferrugem e trinco se oculta num lugar que só a mão filial conhece. O jardim pequeno parece mais verde e úmido que os demais, com suas plantas, tinhorões a samambaias que a mão filial, fiel a um gesto de infância, desfolha ao longo da haste. É sempre quieta a casa materna, mesmo aos domingos, quando as mãos filiais se pousam sobre a mesa farta de almoço, repetindo uma antiga imagem. Há um tradicional silêncio em suas salas e um dorido repouso em suas poltronas. O assoalho encerado, sobre o qual ainda escorrega o fantasma da cachorrinha preta, guarda as mesmas manchas e o mesmo taco solto de outras primaveras. As coisas vivem como em prece, nos mesmos lugares onde as situaram as mãos maternas quando eram moças e lisas. Rostos irmãos se olham dos porta-retratos, a se amarem e compreenderem mudamente. O piano fechado, com uma longa tira de flanela sobre as teclas, repete ainda passadas valsas, de quando as mãos maternas careciam sonhar. A casa materna é o espelho de outras, em pequenas coisas que o olhar filial admirava ao tempo que tudo era belo: o licoreiro magro, a bandeja triste, o absurdo bibelô. E tem um corredor à escuta de cujo teto à noite pende uma luz morta, com negras aberturas para quartos cheios de sombras. Na estante, junto à escada, há um tesouro da juventude com o dorso puído de tato e de tempo. Foi ali que o olhar filial primeiro viu a forma gráfica de algo que passaria a ser para ele a forma suprema de beleza: o verso. Na escada há o degrau que estala e anuncia aos ouvidos maternos a presença dos passos filiais. Pois a casa materna se divide em dois mundos: o térreo, onde se processa a vida presente, e o de cima, onde vive a memória. Embaixo há sempre coisas fabulosas na geladeira e no armário da copa: roquefort amassado, ovos frescos, mangas espadas, untuosas compotas, bolos de chocolate, biscoito de araruta – pois não há lugar mais ´propício do que a casa materna para uma boa ceia noturna . E porque é uma casa velha, há sempre uma barata que aparece e é morta com uma repugnância que vem de longe. Em cima ficaram guardados antigos, os livros que lembram a infância, o pequeno oratório em frente ao qual ninguém, a não ser a figura materna, sabe por que queima, às vezes, uma vela votiva. E a cama onde a figura paterna repousava de sua agitação diurna. Hoje, vazia. A imagem paterna persiste no interior da casa materna. Seu violão dorme encostado junto à vitrola. Seu corpo como se marca ainda na velha poltrona da sala e como se pode ouvir ainda o brando ronco de sua sesta dominical. Ausente para sempre da casa, a figura paterna parece mergulhá-la docemente na eternidade, enquanto as mãos maternas se faziam mais lentas e mãos filiais mais unidas em torno da grande mesa, onde já vibram também vozes infantis. (Vinícius de Morais) ELEMENTOS PREDOMINANTES NA DESCRIÇÃO • Frases nominais (sem verbo) ou orações em que predominam verbos de estado ou condição. Sol já meio de esguelha, sol das três horas. A areia, um borralho de quente. A caatinga, um mundo perdido. Tudo, tudo parado: parado e morto.(Mário Palmério) Efetivamente a rua era aquela; e o velho palácio estava na minha frente. Era um palácio de trezentos anos, cor de barro, que me parecia muito familiar quanto ao desenho de sua alta porta, aos ornatos das colunas e ao lançamento da escada do vestíbulo.(Cecília Meireles) •Frases enumerativas: seqüência de nomes, geralmente sem verbo. “A cama de ferro; a colcha branca, o travesseiro com fronha de morim. O lavatório esmaltado, a bacia e o jarro. Uma mesa de pau, uma cadeira de pau, o tinteiro, papéis, uma caneta. Quadros na parede.” (Érico Veríssimo) •Adjetivação: caracterizadores qualificando nomes. A pele da cabocla era desse moreno enxuto e parelho das chinesas. Tinha uns olhos graúdos, lustrosos e negros como os cabelos lisos, e um sorriso suave e limpo a animar-lhe o rosto oval de feições delicadas. (Érico Veríssimo) •Figuras de linguagem: recursos expressivos, geralmente em linguagem conotativa? A mais usadas na descrição são a metáfora, a compara;’ao, a Prosopopéia, a onomatopéia e a sinestesia. O rio era aquele cantador de viola, em cuja alma se refletia o batuque das estrelas nuas, perdidas no vácuo milenarmente frio do espaço...Depois ele ia cantando isso de perau em perau, de cachoeira em cachoeira... (Bernardo Elis) •Sensações: uso dos cinco Sentidos, ou seja, das percepções visuais, auditivas, gustativas, olfativas e táteis. Os sons se sacodem, berram...Dentro dos sons movem-se cores, vivas, ardentes...Dentro dos sons e das cores, movem-se os cheiros, cheiro de negro...Dentro dos cheiros, o movimento dos tatos violentos, brutais...Tatos, sons, cores, cheiros se fundem em gostos de gengibre... (Graça Aranha) A DESCRIÇÃO CONVENCIONAL Leia o texto abaixo e observe a técnica descritiva explorada pelo autor, para descrever convencionalmente um canário. A praça, o templo. Lugar de encontro. Os homens reunidos para a discussão, para o divertimento, para as rezas. Perguntas e perguntas, respostas, respostas, diálogos com Deus, passeatas, sermões, discursos, procissões, bandas de música, circos, mafuás, andores carregados, mastros e bandeiras, carrosséis, barracas, badalar de sinos, girândolas e fogos de artifício lançados para o alto, ampliando, na direção das torres, o espaço horizontal da praça. Joana, descalça, vestida de branco, os cabelos ouro esvoaçado, traz sobre o peito a imagem emoldurada de São Sebastião. Por cima dos ombros, encobrindo-lhe braços, mãos, e tão comprida que quase chega ao solo, estenderam uma toalha de crochê, com figuras de centauro. As setas grossas, no tronco do santo, parecem atravessa-lo, cravar-se firmes em Joana. Por trás, numa fila torta, cantando em altas vozes, com velas acesas, muitas mulheres. A noite de dezembro não caiu de todo, alguma luz diurna resta no ar. Posso ver que os olhos de Joana são azuis e grandes; e que seu rosto, embora desfigurado, pois ela ainda está convalescente, difere de todos que encontrei, firme e delicado a um tempo. Adaga de cristal. (...) Meio cega, ausente das coisas, febril, as pernas mortas. (Osman Lins) Nesta descrição, impressões líricas compõem a imagem mística de uma mulher enferma. A linguagem moderna de Osman Lins alterna a concisão das frases nominais com a sinuosidade das frases verbais. As frases nominais, telegráficas, abrem o texto, formando, num único parágrafo, uma seqüência de enumerações, onde estão justapostos elementos de natureza diversa: o humano X o divino, o concreto X o abstrato. O segundo parágrafo estende-se entre breves frases nominais e frases de maior complexidade: “Por cima dos ombros, encobrindo-lhe braços, mãos, e tão comprida que quase chega ao solo, estenderam uma toalha de crochê, com figuras de centauro.” As impressões do autor, através da adjetivação, registram fartamente os aspectos visuais:”os olhos de Joana são azuis e grandes.” As sensações auditivas aparecem num flagrante: “cantando em altas vozes.” O subjetivismo está não apenas na manifestação do autor, em 1ª pessoa, mas também nas captações pessoais, únicas, metafóricas: “As setas grossas, no tronco do santo, parecem atravessá-la, cavar-se firmes em Joana”; “firme e delicado a um tempo. Adaga de cristal.” Há, ainda, fragmentos de descrição estática (“Joana descalça, vestida de branco (...) traz sobre o peito a imagem de São Sebastião.” E dinâmica (“ os cabelos de ouro esvoaçando”; “cantando em altas vozes”). Assim, o texto compõe o retrato de um cenário e das pessoas que o animam, entre objetos, cores e movimentos liricamente caracterizados. A DESCRIÇÃO ORIGINAL Veja como, aos olhos de um observador sensível, até uma prosaica cena ganha impressões inesperadas. O esmagamento das gotas Eu não sei, olhe, é terrível como chove. Chove o tempo todo, lá fora fechada e cinza, aqui contra a sacada, com gotões coalhados e duros que fazem plaf e se esmagam como bofetadas um através do outro. Agora aparece a gotinha no alto da esquadria da janela, fica tremelicando contra o céu e se esmigalha em mil brilhos apagados, vai crescendo e balouça, já vai cair, não cai ainda. Está segura com todas as unhas, não quer cair e se vê que ela se agarra com os dentes enquanto lhe cresce a barriga, já é uma gotona que se prende majestosa e de repente zup, lá vai ela, plaf, desmanchada, nada, uma viscosidade no mármore. (Júlio Cortázar) Júlio Cortazar transforma em testemunho descritivo a experiência de observar a chuva e particularizá-la na gota pendente da janela. A tímida e indefinida impressão inicial (“Eu não sei, olhe, é terrível como chove”) dá lugar a uma dinâmica caracterização que atribui movimento e vida a uma gota de chuva, através da concentração de imagens visuais e onomatopéias (plaf,zup), personificando sua resistência e aniquilamento: “fica tremelicando (...), vai crescendo e balouça, (...). Está segura com todas as unhas, não quer cair (...) ela se agarra com os dentes enquanto lhe cresce a barriga”; “se prende majestosa”. AS EXPERIÊNCIAS SENSORIAIS NA DESCRIÇÃO A descrição está intimamente ligada à experiência das sensações físicas e das percepções subjetivas. O leitor capta impressões sensoriais e psicológicas transmitindo-as através de recursos expressivos de linguagem. Assim, a descrição traduz com palavras a especialidade de uma imagem bem como estados de espírito, traços de personalidade e comportamento que seres e objetivos suscitam no observador. Sensações visuais As sensações visuais e/ou percepções visuais são as mais freqüentes e estão relacionadas a cor, forma, dimensões, linhas etc. Quando especificamente relacionadas as cores, são chamadas cromáticas. Companheiros de classe Os companheiros de classe eram cerca de vinte; uma variedade de tipos que me divertia. O Gualtério, miúdo, redondo de costas, cabelos revoltos, mobilidade brusca e caretas de símio – palhaço dos outros, como dizia o professor; (...) o Maurílio, nervoso, insofrido, fortíssimo na tabuada: cinco vezes três, vezes dois, noves fora, vezes sete? ... lá estava Maurílio, trêmulo, sacudindo no ar o dedinho esperto... olhos fúlgidos no rosto moreno, marcado por uma pinta na testa; o negrão, de ventas acesas, lábios inquietos, fisionomia agreste de cabra, canhoto e anguloso, incapaz de ficar sentado três minutos, sempre à mesa do professor e sempre enxotado, debulhando um risinho de pouca-vergonha (...) (Raul Pompéia) Sensações auditivas Muito comuns, as sensações e/ou percepções auditivas estão relacionadas ao som (intensidade, altura, timbre, proveniência, direção, ausência etc). Está sempre a rir, sempre a cantar. Canta o dia inteiro, num tom arrastado, apregoando as revistas que vende.(Graciliano Ramos) Sensações gustativas As sensações e/ou percepções gustativas relacionam-se ao paladar (doce, azedo, amargo, salgado etc). E a saliva daqueles infelizes Inchava em minha boca, de tal arte Que Eu, para não cuspir por toda parte, Ia engolindo aos poucos a hemoptise. (Augusto dos Anjos) Sensações olfativas As sensações e/ou percepções olfativas relacionam-se a cheiro (um perfume, o hálito, uma fragrância etc). A avenida é o mar dos foliões Serpentinas cortam o ar carregado de éter, rolam das sacadas... (Marques Rebelo) Sensações táteis As sensações e/ou percepções táteis resultam do contato da pele com os objetos (aspereza, calor, frio etc.). A tua mão é dura como casca de árvore, ríspida e grossa como um cacto. Cassiano Ricardo) Observe,a seguir, como Graça Aranha mescla, de forma original, todos os Sentidos, num texto denso de imagens: Carnaval Maravilha do ruído, encantamento do barulho. Zé Pereira, bumba, bumba. Falsetes, zombeteiam. Viola chora e espinoteia. Melopéia negra, melosa, feiticeira, candomblé. Tudo é instrumento, flautas, violões, reco-recos, saxofones, pandeiros, liras, gaitas e trompetes. Instrumentos sem nome, inventados no delírio da improvisação, do ímpeto musical. Tudo é canto. Os sons se sacodem, berram. Lutam, arrebentam no ar sonoro dos ventos, vaias, klaxons, aços estrepitosos. Dentro dos sons movem-se cores, vivas, ardentes, pulando, dançando, desfilando sob o verde das árvores, em face do azul da baía no mundo dourado.Dentro dos sons e das cores, movem-se os cheiros, cheiro de negro, cheiro de mulato, cheiro branco, cheiro de todos os matizes, de todas as excitações e de todas as náuseas. Dentro dos cheiros, o movimento dos tatos violentos, sons, brutais, suaves, lúbricos,meigos, alucinantes. Tatos, sons, cores, cheiros se fundem em gostos de gengibre, de mendublim, de castanhas, de bananas, de laranjas, de bocas e de mucosas. Libertação dos Sentidos envolventes das massas frenéticas, que mexericam, de Madureira à Gávea na unidade do prazer desencadeado. (Graça Aranha) Numa fusão dos cinco Sentidos, o autor percorre um canário carnavalesco, registrando as sensações que produzem sons, cores, cheiro, tatos e gostos. Frases nominais e enumerativas caracterizam um espaço vibrante e dinâmico (“maxixam, gritam,tresandam”), além do impressionismo provocado pelas combinações sinestésicas em “viola chora e espinoteia”, “os sons se sacodem”, “cheiro de todos os matizes”, “tatos alucinantes” e “gostos de gengibre”. A técnica de enumeração e repetição vocabular utilizada pelo autor reproduz a intensidade das sensações e a dinâmica do contexto carnavalesco. Observe agora, num texto em versos, o aproveitamento das sensações: Natureza morta Na sala ao sol seco do meio-dia sobre a ingenuidade da faiança portuguesa os frutos cheiram violentamente e a toalha é fria e alva na mesa. Há um gosto áspero de ananases e um brilho fosco de uvaias flácidas e um aroma adstringente de cajus, de pálidas carambolas de âmbar desbotado e um estalo oco de jabuticabas de polpa esticada e um fogo bravo de tangerinas. E sobre esse jogo de cores, gostos e perfumes a sala toma a transparência abafada de uma redoma. (Guilherme Almeida) Aguçando os cinco Sentidos, o poeta intensifica a composição do cenário, através do olfato (“os frutos cheiram violentamente”), do tato (“a toalha é fria”), da visão (“um brilho fosco”), do paladar (“um gosto áspero”) e da audição (“um estalo oco”). Nessas sinestesias estão os cruzamentos inesperados e subjetivos das sensações que empolgam o observador. Sensações espaciais Além das sensações físicas percebidas pelos cinco Sentidos, existem as experiências pessoais de espaço (perspectiva, ângulo, dimensão, direção), como por exemplo altura, largura, profundidade. Há ainda as experiências relacionadas a medidas, como peso, volume, força, densidade, pressão. Antônio Vítor veio andando em grandes passadas e mesmo antes de atingir o pequeno terreiro onde, em frente à casa ciscavam galinhas(...) Parou ao lado da porta da casa de barro batido, mais alta do lado direito que o do esquerdo, uma construção apressada e baixa, aumentada depois para o fundo, e olhou o céu, a alegria estampada no rosto caboclo. (Jorge Amado) Sensações subjetivas Faz também parte da descrição a sensibilidade “interna” do universo do observador (sensações inerentes ao ser humano): alegria, tristeza, amor, ira, náusea, fome, fadiga, vontade, nostalgia, enfim, estados emocionais. A força de meu pai encontraria resistência e gastar-se-ia em palavras. Débil e ignorante, incapaz de conversa ou defesa (...). O coração bate-me forte, desanima, como se fosse parar, a voz emperra, a vista escurece, uma cólera doida agita coisas adormecidas cá dentro. A horrível sensação que me furam tímpanos com pontas de ferro. (...) Sozinho, vi-o de novo cruel e forte, separando, espumando. E ali permaneci, miúdo e insignificante, tão insignificante e miúdo como as aranhas que trabalham na telha negra. (Graciliano Ramos) RECURSOS EXPRESSIVOS NA DESCRIÇÃO A caracterização de um ser ou objeto vazada em linguagem subjetiva implica o uso de determinados recursos expressivos que favoreçam o delineamento dos elementos retratados. Esses recursos são as figuras; dentro as mais comuns, citamos a metáfora, a comparação, a Prosopopéia, a onomatopéia e a sinestesia. Metáfora A metáfora consiste no uso de uma Palavra com sentido diferente daquele que lhe é próprio. É uma comparação abreviada, em que não aparecem os nexos comparativos. Jerônimo era alto, espadaúdo, construção de touro, pescoço de Hércules, punho de quebrar um coco com um murro: era a força tranqüila, o pulso de chumbo. O outro, franzino, um palmo mais baixo que o português, pernas e braços secos, agilidade de maracajá: era a força nervosa; era o arrebatamento que tudo desbarata no sobressalto do primeiro instante. Um sólido e resistente; o outro, ligeiro e destemido; mas ambos corajosos. (Aluísio Azevedo) Comparação A comparação consiste no conforto de duas idéias por meio de uma conjunção comparativa. Sentia-me preso como um cachorro acorrentado, como um urubu atraído pela carniça. (Graciliano Ramos) O espelho da águas, liso e polido como um cristal, refletia a claridade das estrelas... (José de Alencar) Apareceram os primeiros ventos gerais, doidamente, que nem um bando solto de demônios travessos e brincalhões.(Aluísio Azevedo) Prosopopéia A Prosopopéia consiste em atribuir características animais a seres inanimados (animação) e características humanas a seres não humanos (personificação), E até onde a vista alcança, num semicírculo imenso, há montes de água estrondando nesse cantochão, árvores tremendo, ilhas dependuradas, insanas, se toucando de arco-íris... (Rubem Braga) Onomatopéia A onomatopéia consiste na imitação aproximada de ruídos e sons de qualquer natureza. Exemplos: relógio = tique-taque moeda = tilintim pássaro = piu-piu galo = cocorocó Até o ar é próprio; não vibram nele fonfons de auto, nem cornetas de bicicletas, nem campainhas de carroça, nem pregões de italianos, nem tenténs de sorveteiros, nem plás-plás de mascates sírios. Só velhos sons coloniais – o sino, o chilreio das andorinhas na torre da igreja, o rechino dos carros de boi, o cincerro de tropas raras, o trabalhar das baitacas que em bando rumoroso cruzam e recruzam o céu.(Monteiro Lobato) As palavras que resultam da transformação do som reproduzido em verbo ou em Substantivo chamam-se vocábulos onomatopéicos, como é o caso de “o chilreio das andorinhas”, “o richino dos carros de boi”, “o cincerro das tropas raras” e “o taralhar das baitacas”, que aparecem no fragmento descritivo de Monteiro Lobato. É mais comum o uso de vocábulos onomatopéicos do que da onomatopéia. Observe o exemplo abaixo: A noite enchia-se de vozes estranhas, os sapos coaxavam,gargarejavam; eram trissos, zizios sutis, estilos, pios crebos e, de quando em quando, numa lufada mais forte, o farfalho das ramas escachoava como num rebojo d’águas.(Coelho Neto) Sinestesia A sinestesia consiste no cruzamento de sensações diferentes. Olívia era atraente, tinha uns olhos quentes, uma boca vermelha de lábios cheios. olhos = sensação visual quentes = sensação tátil (térmica) (Clarice Lispector) Voltou-se o canto, o rosto próximo da parede – a camada de ar ali como se guardava mais fresca, e com o relento de limo, cheiro verde, quase musgoso... cheiro = sensação olfativa verde = sensação visual (Guimarães Rosa) A fusão de percepções físicas (olfato, gustação, visão, audição e tato) com impressões psicológicas ou subjetivas também produz sinestesia. A bondade era morna e leve cheirava A Carne crua bondade = percepção espiritual guardada há muito tempo. (Guimarães Rosa) morna = percepção tátil leve = percepção sensitiva cheirava = percepção olfativa Os retirantes O calor continuava. Nada diminuía sua intensidade, de manhã o sol se levantava apoplético, sumindo ao entardecer raivoso e vermelho. A terra permanecia sedenta, com bocarras abertas à espera de água. No céu esplendidamente azul, nem uma nuvem, nenhum sinal de chuva. Um azul límpido, tranqüilo, um imenso borrão azul, nada mais. Na cidade, apareciam bandos de retirantes, famélicos, trêmulo, magros, como bambus ao vento. (Odete de Barros Mott) Nesse flagrante descritivo, temos uma combinação de recursos expressivos caracterizadores das impressões que mais sensibilizam o observador. As prosopopéias (“o sol se levantava apoplético”; “entardecer raivoso”; “terra(...) sedenta, com bocarras abertas”), a sinestesia (“azul(...)tranqüilo”), a metáfora (céu = “um imenso borrão azul”) e a comparação (“trêmulos, magros, como bambus ao vento”) dão ao texto um caráter essencialmente impressionista. A PERSPECTIVA NA DESCRIÇÃO A descrição é um trabalho que envolve todo um processo: o observador deverá selecionar o objeto quer descrever, a visão que ele quer dar do objeto, os elementos que colocará em destaque, o ângulo de visão, a distância, etc; isso é organizar. A leitura de um texto descritivo supõe, pois, o trabalho de perceber o modo de que o observador se serviu para compô-lo. É essencial que o leitor explore a organização do texto, percebendo os elementos e estabelecendo relações entre eles na busca de perspectivas de visualização do objetivo descrito. Quando observamos bem um objeto, vemos sua forma global, suas partes e seus pormenores. Na leitura ou elaboração de um texto descritivo, é importante a visualização do objeto, suas partes e pormenores. Dessa forma, quando descrevemos, organizamos o texto, selecionando os elementos, suas características mais marcantes, as impressões sensoriais que melhor os distinguem e uma dimensão essencial da descrição: a perspectiva do descrevedor diante do objeto. Observe, no texto seguinte, o ângulo assumido pelo observador: A estrada estendia-se deserta; à esquerda os campos desdobravam-se a perder de vista, serenos, verdes, clareados pela luz macia do sol morrente, manchados de pontas de gado que iam se arrolhando nos paradouros da noite; à direita, o sol, muito baixo, vermelho-dourado, entrando em massa de nuvens de beiradas luminosas. Nos atoleiros, secos, nem um quero-quero: uma outra perdiz, sorrateira, piava de manso Poe entre os pastos maduros; e longe, entre o resto de luz que fugia de um lado e a noite que vinha, peneirada, do outro, alvejava a brancura de um João-grande, voando, sereno, quase sem mover as asas, como numa despedida triste, em que a gente também não sacode os braços... Foi caindo uma aragem fresca; e um silêncio grande em tudo. (J.Simões Lopes Neto) O olho humano parece rastear todos os ângulos da paisagem, percorrendo os espaços como uma câmera: desloca-se da esquerda para a direita, focaliza os atoleiros e os pastos maduros e depois lança sua perspectiva para o horizonte longínquo para dividi-lo em dois – de um lado, “o resto de luz que fugia”, e de outro, “a noite que vinha peneirada.” Enquanto a precisão do olhar dimensionada os ângulos do espaço (a paisagem), a sensibilidade da visão recorta a magnitude do momento ( o pôr-do-sol), sendo a sinestesia seu Ponto de fusão: “pela luz macia do sol morrente”, “iam se arrolhando nos paradouros da noite”, “um silêncio grande em tudo.” Além das sinestesias, a comparação é de grande efeito na imagem que encerra o texto: “voando, sereno, quase sem mover as asas como despedida triste, em que a gente também não sacode os braços...” DESCRIÇÃO OBJETIVA E SUBJETIVA Há dois aspectos fundamentais na maneira de ver o mundo – o objetivo e o subjetivo -, que são flagrantes, de modo especial, na descrição. Apreendemos o mundo com nossos Sentidos e transformamos nossa percepção em palavras. Das diferenças de sensibilidade de cada observador decorre o predomínio da abordagem objetiva ou subjetiva. Amanhecera um domingo alegre no cortiço, um bom dia de abril. Muita luz e pouco calor. As tinas estavam abandonadas; os coradouros despidos. Tabuleiros de roupa engomada saíam das casinhas, carregados na maior parte pelos filhos das próprias lavadeiras que se mostravam agora quase todas de fato limpos; os casaquinhos brancos avultavam por cima das saias de chita de cor. Desprezavam-se os grandes chapéus de palha e os aventais de aniagem; agora as portuguesas tinham na cabeça um lenço novo de ramagens vistosas e as brasileiras haviam penteado o cabelo e pregado nos cachos negros um ramalhete de dois vinténs; aquelas trançavam no ombro xales de lã vermelha, e estas de crochê, de um amarelo desbotado. Viram-se homens de corpo nu, jogando a placa, com grande algazarra. Um grupo de italianas, assentado debaixo de uma árvore, conversa ruidosamente, fumando cachimbo. Mulheres ensaboavam os filhos pequenos debaixo da bica, muito zangadas, a darem-lhes murros, a praguejar, e as crianças berravam, de olhos fechados, esperneando. A casa da Machona estava num rebuliço, porque a família ia sair a passeio; gritava Nenen, gritava o Agostinho. De muitas outras saíam cantos ou sons de instrumentos; ouviam-se guitarras, cuja discreta melodia era de vez em quando interrompida por um ronco forte de trombone. (Aloísio Azevedo) A descrição objetiva é a reprodução fiel do objeto. É a visão das características do objeto (tamanho, cor, forma, espessura, consistência, volume, dimensões etc.), segundo uma percepção comum a todos, de acordo com a realidade. Na descrição objetiva há grande preocupação com a exatidão dos detalhes e a precisão vocabular. O observador descreve o objeto tal qual ele se apresenta na realidade. “Há um pinheiro e extático, há grandes salso-chorões derramados para o chão, e a graça menina de uma cerejeira cor de Vinho, que o sol oblíquo acende e faz fulgurar; mas o álamo junto do portão tem um vigor e uma pureza que me fazem bem pela manhã, como se toda manhã, ao abrir a janela, Eu visse uma jovem imensa, muito clara, de olhos verdes, de pé, sorrindo para mim.”