(Hélio Consolaro ) O tema proposto pelo Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) sempre traz uma situação como tema, geralmente de caráter social, para que o estudante faça uma análise. A banca apresenta textos de apoio, gráficos e (ou) figuras para que o estudante tenha subsídios para analisar o problema apresentado. Nesse modelo, sempre proponho a meus alunos do ensino médio que façam uma dissertação de quatro parágrafos, quantidade ideal para atingir as 25 linhas propostas. O aluno deve verbalizar no primeiro parágrafo o problema apresentado como tema, com suas próprias palavras. Nele, não se dá opinião, pois não se trata de dissertação argumentativa. A posição ideológica do aluno (não se omita) vai aparecer nos apontamentos da causa e da conseqüência, e principalmente na conclusão. No segundo parágrafo, o estudante indica uma causa do problema, o porquê daquilo acontecer; no terceiro, uma conseqüência, em razão dele, ocorre tal coisa. E na conclusão, como sempre, a banca examinadora pede para que o estudante apresente a solução para o problema. Exemplo bem resumido: Introdução: Muitos jovens deixam-se dominar pelo vício em diversos tipos de entorpecentes, mal que se alastra cada vez no Brasil. Tópico frasal do 2.º parágrafo (causa): Algumas pessoas refugiam-se nas drogas na tentativa de esquecer seus problemas. Tópico frasal do 3.º parágrafo (conseqüência): Tornam-se Dependentes dos psicóticos dos quais se utilizam e, na maioria das vezes, transformam-se em pessoas inúteis para si mesmas e para a comunidade. Conclusão (solução): Fazem-se necessárias políticas públicas fortes de prevenção, com atividades culturais e esportivas para a juventude, ocupando-lhe o tempo, formando o caráter dos adolescentes. Introdução e conclusão devem ser curtas, pois na primeira apresenta-se o problema; na segunda, a solução, sem delongas. A maior parte das linhas deve ser usada nos parágrafos da causa e da conseqüência. Modelos de redações do ENEM Modelo 1: Copa do Mundo Excesso de confiança estraga Aquilo que era ânimo virou desânimo. Alguns brasileiros caíram num baixo astral, outros ficaram raivosos porque a seleção brasileira foi desclassificada nas quartas-de-final da Copa do Mundo. Tudo isso aconteceu porque houve excesso de autoconfiança por parte da equipe brasileira. A conquista do penta, feita com muita dificuldade em 2002, como aconteceu com a Itália neste ano, cegou a todos. Devido ao sucesso da copa anterior, imprensa e torcida se empolgaram, achando que o Brasil seria campeão por antecipação. Isso contagiou jogadores e dirigentes, deixando-os de salto alto. Está provado que erra menos quem duvida e não acredita piamente em certezas. Logo, com a realidade estampada, depois daquele jogo com a França, em que o Brasil foi derrotado e desclassificado , veio a revolta e a Depressão da torcida. E como participantes de uma civilização judaico-cristã, os brasileiros foram atrás de culpados e vítimas, uma verdadeira caça às bruxas, como se em futebol não se pudesse conjugar o verbo perder. Carlos Alberto Parreira, o técnico, e os jogadores Roberto Carlos e Cafu foram crucificados. Com certeza, na próxima copa, em 2010, na África do Sul, o Brasil não se submeterá a outro fiasco, porque tem como exemplo o amargo da derrota de 2006. E todos os brasileiros estarão com o senso crítico mais aguçado e não confiarão cegamente, exercendo o seu poder de crítica antecipadamente. Modelo 2 - Violência Amar e perdoar O Brasil, infelizmente, vem sendo tomado pela violência. As pessoas estão indignadas, mas também não conseguem interpretar a nova realidade, por isso ficam meio perdidas, se perguntando: por que, meu Deus, acontece tudo isso. Tudo isso acontece porque se injetou na sociedade brasileira um exacerbado espírito de competição. Todos querem vencer, não importa como, mesmo que seja sem ética. E a pessoa bem-sucedida é aquela que compra mais, usa produtos de boa marca, consome mais. A vida espiritual se reduziu a orar para TER mais e não para SER mais. Nessa competição em que a vida foi transformada, instalou-se o vale-tudo, por isso "levar vantagem em tudo" é o grande slogan da pessoa vencedora, nem que para vencer precise massacrar outras pessoas. Deus não é o grande Pai, ninguém mais vê o outro como irmão, mas como um concorrente, uma pessoa a ser derrotada. Nem que seja pela violência. Vencer é mais importante do que perdoar. Parece que a humanidade precisará viver uma catástrofe para acordar, pois está tomada pelo êxtase do Capitalismo exacerbado. Assim descobrirá que é preciso viver, mas também deixar o outro viver. Amar e perdoar é mais importante que competir e vencer. Hélio Consolaro é professor de Português, coordenador do Site Por Trás das Letras, escritor e presidente da Academia Araçatubense de Letras.