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Coerencia e Coesão

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(Um estudo aprofundado sobre os dois temas. ) Apresentação Autor: ? Pretendemos, neste tema, trabalhando com os conceitos de coerência e coesão, mostrar o papel e a importância de cada um desses mecanismos não só para a leitura e a compreensão de textos como também para sua produção. A coerência e a coesão contribuem para conferir textualidade a um conjunto de enunciados. Assim, a coerência, manifestada em grande parte no nível macrotextual, é o resultado da possibilidade de se estabelecer alguma forma de unidade ou relação entre os elementos do texto. E a coesão, manifestada no nível microtextual, se refere ao modo como os vocábulos se ligam dentro de uma seqüência. Ao analisar esses mecanismos, mostramos, por meio de exemplos, as formas em que podem ocorrer. Ao mesmo tempo, procuramos fazer com que os usuários saibam empregar adequadamente cada mecanismo não só para depreender o sentido de um texto como para produzir textos com sentido, estabelecendo uma continuidade entre as partes, de modo a instaurar entre elas uma unidade, ou seja, a coerência. É importante também lembrar que a coesão pode auxiliar no estabelecimento da coerência, embora, às vezes, a coesão nem sempre se manifeste explicitamente através de marcas lingüísticas, o que faz concluir que pode haver textos coerentes mesmo que não tenham coesão explícita. Este tema será, portanto, desenvolvido com o objetivo de mostrar aos usuário da língua que: 1) mais importante que conhecer os conceitos de coerência e coesão é saber de que maneira esses fenômenos contribuem para tornar um texto inteligível; 2) a coerência (conectividade conceitual) e a coesão (conectividade seqüencial) são requisitos fundamentais para a elaboração de qualquer tipo de texto; 3) enquanto a coerência se fundamenta na continuidade de Sentidos, a coesão pode se apresentar por meio de marcas lingüísticas, observadas na gramática ou no léxico; 4) é necessário perceber como coerência e coesão se completam no processo de produção e compreensão do texto. Considerações sobre o conceito de coerência No nosso dia-a-dia, são comuns comentários do tipo: O que leva as pessoas a fazerem tais observações, provavelmente, é o fato de perceberem que, por algum motivo, escapa a elas o entendimento de uma Frase ou de todo o texto. Coerência está, pois, ligada à compreensão, à possibilidade de interpretação daquilo que se diz ou escreve. Assim, a coerência é decorrente do sentido contido no texto, para quem ouve ou lê. Uma simples Frase, um texto de jornal, uma obra literária (romance, novela, poema...), uma conversa animada, o discurso de um político ou do operário, um livro, uma canção ..., enfim, qualquer comunicação, independente de sua extensão, precisa ter sentido, isto é, precisa ter coerência. A coerência depende de uma série de fatores, entre os quais vale ressaltar: ·        o conhecimento do mundo e o grau em que esse conhecimento deve ser ou é compartilhado pelos interlocutores; ·        o domínio das regras que norteiam a língua - isto vai possibilitar as várias combinações dos elementos lingüísticos; ·        os próprios interlocutores, considerando a situação em que se encontram, as suas intenções de comunicação, suas crenças, a função comunicativa do texto. Portanto, a coerência se estabelece numa situação comunicativa; ela é a responsável pelo sentido que um texto deve ter quando partilhado por esses usuários, entre os quais existe um acordo pré-estabelecido, que pressupõe limites partilhados por eles e um domínio comum da língua. A coerência se manifesta nas diversas camadas da organização do texto. Ela tem uma dimensão Semântica - caracteriza-se por uma interdependência Semântica entre os elementos constituintes do texto. Tem principalmente uma dimensão pragmática - é fundamental, no estabelecimento da coerência, o nosso conhecimento de mundo, e esse conhecimento é acumulado ao longo de nossa existência, de maneira ordenada. Ainda com respeito ao conhecimento partilhado de mundo, devemos dizer que a ele se acrescentam as informações novas. Se estas forem muito numerosas, o texto pode se tornar incoerente devido à não-familiaridade do ouvinte/leitor com essa massa desconhecida de informações. É isto que acontece, por exemplo, quando lemos um texto muito técnico, de uma área na qual somos leigos. Na verdade, quando dizemos que um texto é incoerente, precisamos esclarecer que motivos nos levaram a afirmar isto. Ele pode ser incoerente em uma determinada situação, porque quem o produziu não soube adequá-lo ao receptor, não valorizaou suficientemente a questão da comunicabilidade, não obedeceu ao código lingüístico, enfim, não levou em conta o fato de que a coerência está diretamente ligada à possibilidade de se estabelecer um sentido para o texto. Embora nosso objetivo não seja teorizar em demasia o conceito de coerência, achamos necessário retomar algumas afirmações feitas por Koch e Travaglia (1989), como pontos de partida para o trabalho com textos que se segue: "A coerência é profunda, subjacente à superfície textual, não-linear, não marcada explicitamente na estrutura de superfície. (...) Ela tem a ver com a produção do texto, à medida que quem o faz quer que seja entendido por seu interlocutor. (...) A coerência diz respeito ao modo como os elementos subjacentes à superfície textual vêm a constituir, na mente dos interlocutores, uma configuração veiculadora de Sentidos. (...) A coerência, portanto, longe de constituir mera qualidade ou propriedade do texto, é resultado de uma construção feita pelos interlocutores, numa situação de interação dada, pela atuação conjunta de uma série de fatores de ordem cognitiva, situacional, sociocultural e interacional." podemos notar que as quatro primeiras não oferecem qualquer problema de compreensão. Dizemos, então, que elas têm coerência. Já não ocorre o mesmo em relação às duas últimas. Em As árvores estão plantadas no deserto, há duas idéias opostas, uma contraria a outra. Em A árvore está grávida, há uma restrição na combinatória ser vegetal + grávida, o que não ocorre em A mulher está grávida, em que temos a combinatória possível ser racional + grávida. Examinemos agora as frases: a) O pássaro voa. b) O homem voa. A Frase a tem um grau de aceitação maior do que a Frase b, que depende de uma complementação para esclarecer qual o meio utilizado pelo homem para voar - O homem voa de asa delta, por exemplo. A combinação de homem com voa tem outras significações no plano da conotação: O homem sonha, o homem delira, o homem anda rápido. Neste plano, muitas outras combinações são possíveis:      As nuvens estão prenhes de chuva.      Sua boca cuspia desaforos. Observe os três pares que se seguem: 1.     a) Todo mundo destrói a natureza menos Eu. b) Todo mundo destrói a natureza menos todo mundo. 2.     a) Todo mundo viu o mico-leão, mas Eu não. b) Todo mundo viu o mico-leão, mas Eu não ouvi o sabiá cantar. 3.     a) Apesar de estarem derrubando muitas árvores, a floresta sobrevive. b) Apesar de estarem derrubando muitas árvores, a floresta não tem muitas árvores. ·        as frases de letra a de cada par são facilmente compreendidas, têm coerência; ·        as frases de letra b de cada par apresentam problema de compreensão. Estas observações mostram que a coerência de uma Frase, de um texto, não se define apenas pelo modo como elementos lingüísticos se combinam; depende também do conhecimento do mundo partilhado por emissor e receptor, bem como do tipo de texto em questão. Podemos ainda dizer que, nas frases de letra b, os elementos de coesão não foram usados de forma adequada, por isto não contribuíram para estabelecer a coerência. O trecho abaixo mostra as dificuldades sentidas pelos habitantes da Mata Atlântica como conseqüência da crise econômica. O sentido do texto é viabilizado pela combinação dos elementos presentes numa progressão harmoniosa. Observe como este sentido vai sendo construído a partir da ocorrência de vocábulos relacionados entre si. Por exemplo: Observe finalmente: Se está difícil sobreviver aí na cidade, imagine aqui. Numa primeira leitura, esta Mensagem parece vaga : aqui aponta para várias possibilidades de significação, entretanto cada uma elas claramente se opõe a "cidade". Mas, se situarmos esta Frase como introdutória ao texto sobre a Mata Atlântica, o sentido fica mais explícito, sobretudo se a Frase for acompanhada da imagem de um habitante da Mata Atlântica. Tipos de Coerência Em obra na qual discutem as estratégias cognitivas de compreensão do discurso, Van Dijk e Kintsch (1983) falam de coerência local e de coerência global. Enquanto a primeira se refere a partes do texto, a segunda se refere ao texto como um todo. Embora já tenha sido dito anteriormente que a coerência diz respeito à intenção comunicativa do emissor, interagindo, de maneira cooperativa, com o seu interlocutor, acontece de, em um mesmo texto, ocorrerem partes ou passagens com problemas de incoerências - incoerências locais no caso - que acabam por perturbar a compreensão daquela passagem. A presença de uma incoerência local pode não prejudicar a compreensão do texto, mas é claro que assim não será se houver um grande número de problemas desse tipo. Ainda na obra citada, os autores apontam alguns tipos de coerências, a saber, coerência Semântica, coerência sintática, coerência estilística, coerência pragmática. Coerência Semântica Refere-se à relação entre os significados dos elementos das frases em seqüência; a incoerência aparece quando esses Sentidos não combinam, ou quando são contraditórios. Exemplos: 1) ... ouvem-se vozes exaltadas para onde acorreram muitos fotógrafos e telegrafistas para registrarem o fato. O uso do vocábulo telegrafista é inadequado neste contexto, pois o fato que causa espanto será documentado por fotógrafos e, talvez, por cronistas, que, depois, poderão escrever uma crônica sobre ele, mas certamente telegrafistas não são espectadores comuns nessas circunstâncias. Ao lado deste, há um outro problema, de ordem sintática: trata-se do emprego de para onde, que teria vozes exaltadas como referente, o que não é possível, porque esse referente não contém idéia de lugar, implícita no pronome relativo onde. Cabe ainda uma observação quanto ao tempo verbal de ouvem-se e acorreram, presente e pretérito perfeito, respectivamente. Seria mais adequado os dois verbos estarem no mesmo tempo. 2) O governo principalmente não corresponde de uma maneira correta em relação ao nível de condições que para muitos seriam uma decisão óbvia. Nesta Frase, há duas incoerências semânticas. A primeira decorre do uso inadequado de corresponder - corresponder em relação ao nível - que poderia ser substituído por responder, mas, mesmo assim, o complemento teria que ser modificado, para resolver o problema da incoerência sintática - corresponder a (alguma coisa). A segunda está na expressão nível de condições. O vocábulo nível é desnecessário, podendo-se dizer simplesmente em relação às condições. 3) Educação, problema universal que por direito todo indivíduo deve ter acesso. A inadequação, parece-nos, se deve ao fato de não ficar claro qual é o antecedente do pronome que. Da maneira como foi escrita a Frase, o antecedente é problema universal, e, neste caso, a incoerência Semântica está na não-combinação entre os Sentidos de ter acesso e problema. Um problema precisa ser resolvido, solucionado, mas não ser alcançado, que é o sentido de ter acesso. É muito mais provável que o autor desta Frase tenha pensado que todo indivíduo deve ter acesso à educação, mas, da forma como ordenou as palavras, causou ambigüidade com relação ao antecedente do que. Ainda dentro deste tipo de coerência, lembramos que o pouco domínio do sentido dos vocábulos e das restrições combinatórias podem também gerar frases com problemas de compreensão, como as que seguem: Coerência Sintática Refere-se aos meios sintáticos usados para expressar a coerência semântica: conectivos, Pronomes, etc. Exemplos: 1) Então as pessoas que têm condições procuram mesmo o ensino particular. Onde há métodos, equipamentos e até professores melhores. A coerência deste Período poderia ser recuperada se duas alterações fossem feitas. A primeira seria a troca do relativo onde, específico de lugar, para no qual ou em que (ensino particular, no qual/ em que há métodos ...), e a segunda seria a substituição do Ponto por Vírgula, de maneira que a oração relativa não ocorresse como uma oração completa e independente da anterior. Teríamos a seguinte oração, sem problemas de compreensão: Então as pessoas que têm condições procuram mesmo o ensino particular, no qual há equipamentos e até professores melhores. 2) Na verdade, essa falta de leitura, de escrever, seja porque tudo já vem pronto, mastigado para uma boa compreensão, não precisando pensar. Há, nesta Frase, vários problemas que prejudicam a sua coerência. O primeiro é o não-paralelismo entre leitura (nome) e escrever (verbo); seria desejável, por exemplo, dizer falta de ler, de escrever, ou falta de leitura, falta de treino de escrita. Depois foi empregada a conjunção seja, que geralmente se usa para apresentar mais de uma alternativa: seja porque tudo já vem pronto, seja porque não há estímulo por parte dos professores; usada isoladamente, ela perde o seu sentido alternativo. Talvez o autor estivesse querendo dizer seja porque tudo já vem mastigado; a elipse da conjunção na segunda expressão foi inadequada. Percebemos, ainda, que o Sujeito essa falta de leitura acabou não se juntando a nenhum predicado, e a Frase ficou fragmentada. Por último, não foi explicitado o termo que pode preencher essa função. 3) O papel preponderante da escola, que seria de formar e informar, principalmente crianças e adultos, hoje não está alcançando esse objetivo. Esta Frase apresenta o seguinte problema: ela é longa demais, por isso o predicado, muito distante do Sujeito, acaba discordando dele, não gramaticalmente, mas pela inadequação do vocabulário. Pode-se dizer que há um cruzamento na estrutura da Frase, o que causa uma incoerência sintática. (As frases usadas como exemplos foram produzidas por alunos recém-ingressos na universidade.) Coerência Estilística Percebemos, pelos exemplos citados abaixo, que este tipo de coerência não chega, na verdade, a perturbar a interpretabilidade de um texto; é uma noção relacionada à mistura de registros lingüísticos. É desejável que quem escreve ou lê se mantenha num estilo relativamente uniforme. Entretanto, a alternância de registros pode ser, por outro lado, um recurso estilístico. Leia este poema de Manuel Bandeira: O autor procede como se estivesse falando, aconselhando alguém, advertindo sobre uma possível "cantada". Há mistura de tratamento (tu/você), mistura de registros, pois o autor utiliza várias expressões da língua oral, como "do tamanho de um bonde", "se ele se rasgar todo", "cai fora" , ao mesmo tempo em que emprega o futuro do subjuntivo, tempo mais comum num registro mais cuidado. Agora leia este trecho, extraído de uma aula gravada: Nesta exposição, chamada, dentro do corpus do projeto, de elocução formal, o professor emprega uma grande variação de registro, movendo-se todo o tempo entre o formal, para explicar o conceito de solubilidade, e o informal, servindo-se de gírias (troço, cascata, estar por dentro, jogada, decoreba, cara), talvez com o objetivo de tornar a explicação menos pesada e a exposição mais interessante para os alunos, aproximando-se deles ao usar essa maneira de falar. Portanto, nesta passagem, a mistura de registros, sem causar incoerência, pode ter uma causa objetiva. Coerência Pragmática Refere-se ao texto visto como uma seqüência de atos de fala. Para haver coerência nesta seqüência, é preciso que os atos de fala se realizem de forma apropriada, isto é, cada interlocutor, na sua vez de falar, deve conjugar o seu discurso ao do seu ouvinte. Quando uma pessoa faz uma pergunta a outra, a resposta pode se manifestar por meio de uma afirmação, de outra pergunta, de uma promessa, de uma negação. Qualquer uma dessa seqüências seria considerada coerente. Por outro lado, se o interlocutor não responder, virar as costas e sair andando, começar a cantar, ou mesmo dizer algo totalmente desconectado do tema da pergunta, estas seqüências seriam consideradas incoerentes. Exemplo: Piadas podem ser elaboradas a partir de incoerências: Para quem fez a pergunta, não pareceu nem um pouco incoerente a resposta obtida. Entretanto, a Frase de B não é a resposta, é simplesmente um pedido de tempo para depois dar atenção ao interlocutor A. Nós é que percebemos a incoerência da seqüência e tomamos o conjunto como uma piada. Há ainda incoerências geradas a partir da desobediência a articulações de conteúdo. Se você ouvir a Frase Meu irmão é filho único pode pensar que quem a pronunciou desconhece o sentido dos vocábulos usados, pois a seqüência contém uma contradição. O sentido de irmão inclui o fato de que esse indivíduo tem, pelo menos, uma irmã ou irmão. E um último exemplo pode ser esta Frase, ouvida recentemente em um programa de televisão: "Me inclui fora dessa." Parece que o emissor não conhece o sentido do verbo incluir, que certamente não pode ocorrer combinado com fora. Ou então, usa expressamente o advérbio fora para explicar sua intenção de não ser incluído em algum projeto. Texto e Coerência Em outros temas desenvolvidos nesta série - O texto narrativo (tema 6), O texto descritivo (tema 7), O texto dissertativo e a argumentatividade (tema 8) -, mostramos como a coerência e a coesão ocorrem nos diversos tipos de texto. Retomando este Ponto, lembramos que cada tipo de texto tem sua estrutura própria, por isso os mecanismos de coerência e de coesão também vão se manifestar de forma diferente na superfície lingüística, conforme se trate de um texto narrativo, descritivo ou dissertativo-argumentativo. No texto narrativo, a coerência existe em função, sobretudo, da ordenação temporal. Tomemos como exemplo o conhecido poema A pesca, de Affonso Romano de Sant’Anna, em que não há elementos coesivos. No entanto há coerência em função de uma seqüência temporal depreendida não só da ordem em que foram colocados os substantivos, mas da escolha de vocábulos de campos semânticos relacionados à pesca.   A história infantil A Casa Sonolenta, um texto narrativo e descritivo, é mais um bom exemplo de como a seqüência é fundamental para que se estabeleça a Coerência Textual. A história se estrutura com base em dois momentos: 1º momento - todos estão dormindo. 2º momento - todos acordam, cada um por sua vez, movidos pela ação da Pulga. A coerência, na primeira parte, se dá pela escolha de vocábulos do campo semântico de dormir - cama, sonolenta, aconchegante, roncando, sonhando, ressonando, dormitando, cochilando. Não houve repetição de nenhum verbo, e cada um deles foi combinado coerentemente com cada habitante da casa. O caráter descritivo desta parte se apóia em Adjetivos (caracterizando os seres inanimados) e verbos no gerúndio e pretérito imperfeito (atribuídos aos seres animados). A segunda parte do texto apresenta a mudança desencadeada a partir da picada da Pulga. Os verbos estão no pretérito perfeito, marcando a ação finalizada. Lembramos ainda o título do conto de Carlos Drummond de Andrade - Flor, telefone, moça. Os três vocábulos juntos, aparentemente, não constituem título coerente para um conto. No entanto, a coerência advém do próprio conto, que se resume na seguinte história: uma moça, que tinha o costume de passear no cemitério, um dia, com um gesto distraído, arrancou uma flor de um túmulo, machucou-a com as mãos e depois jogou-a fora. A partir daí, passa a receber insistentes telefonemas feitos por uma voz que reclama de volta a sua flor. A família se envolve, tentando uma solução para os telefonemas que, a cada dia, deixam a moça mais nervosa e sem apetite. O caso termina em tragédia. A moça, sem ânimo para coisa alguma, acaba definhando e morrendo. Nunca mais houve telefonemas. Apenas os fatos narrados no conto justificam a ordem em que os vocábulos foram organizados no título. No texto descritivo, a coerência se estabelece, sobretudo, em função de uma ordenação espacial. Quem descreve procura percorrer os detalhes daquilo que descreve, seja uma pessoa, seja um cenário, seja um objeto, obedecendo a uma seqüência, com a finalidade de auxiliar o leitor/ouvinte a compor o todo a partir dessas informações parciais. No trecho abaixo, extraído de "Vidas Secas", temos uma série de atos que, se alterada, prejudica a coerência do texto. Com respeito a essa ordenação das informações num texto descritivo, é interessante assinalar que a ordem em que são percebidos os objetos ou os componentes de uma cena pode determinar a organização linear das seqüências usadas para descrevê-los, como no parágrafo abaixo:   Entretanto, isto pode não acontecer, ou seja, a ordenação é feita a partir da seleção das informações julgadas relevantes, como no texto abaixo: No texto dissertativo-argumentativo, é muito importante para a coerência a ordenação lógica das idéias. As possibilidades de correlacionar os argumentos decorrem dos operadores lógico-discursivos empregados. Há conectores específicos para se expressar as diferentes articulações sintáticas - causa, finalidade, conclusão, condição etc - e eles devem ser usados adequadamente, de acordo com a relação que se quer exprimir ao desenvolver uma argumentação. É ainda muito importante, com respeito à coesão, uma combinação cuidosa dos tempos verbais empregados. Observe: Temos, neste parágrafo, os conectores mas (idéia adversativa) e desde que (condição), que não podem ser substituídos por conectores de outro sentido, sob pena de alterar o que se quer expressar. As expressões é bom saber, evidentemente têm a finalidade de introduzir e reforçar os argumentos. Finalmente, lembramos que o uso do conector desde que pede o emprego do verbo no modo subjuntivo, tempo presente, o que foi feito pelo autor do texto (desde que ... satisfaça). O mesmo se verifica na Frase anterior: Precisa de boa sacudida que o faça... É importante, pois, escolher os conectores adequados, quando o objetivo é argumentar de maneira coerente e coesa. Considerações sobre o Conceito de Coesão São muitos os autores que têm publicado estudos sobre coerência e coesão. Apoiados nos trabalhos de Koch (1997), Platão e Fiorin (1996), Suárez Abreu (1990) e Marcuschi (1983), apresentamos algumas considerações sobre o conceito de coesão com o objetivo de mostrar a presença e a importância desse fenômeno na produção e interpretação dos textos. Koch (1997) conceitua a coesão como "o fenômeno que diz respeito ao modo como os elementos lingüísticos presentes na superfície textual se encontram interligados, por meio de recursos também lingüísticos, formando seqüências veiculadoras de sentido." Para Platão e Fiorin (1996), a Coesão Textual "é a ligação, a relação, a Conexão entre as palavras, expressões ou frases do texto." A coesão é, segundo Suárez Abreu (1990), "o encadeamento semântico que produz a textualidade; trata-se de uma maneira de recuperar, em uma sentença B, um termo presente em uma sentença A." Daí a necessidade de haver concordância entre o termo da sentença A e o termo que o retoma na sentença B. Finalmente, Marcuschi (1983) assim define os fatores de coesão: "são aqueles que dão conta da seqüenciação superficial do texto, isto é, os mecanismos formais de uma língua que permitem estabelecer, entre os elementos lingüísticos do texto, relações de sentido." A coesão pode ser observada tanto em enunciados mais simples quanto em enunciados mais complexos. Observe: 1) Mulheres de três gerações enfrentam o preconceito e revelam suas experiências. 2) Elas resolveram falar. Quebrando o muro de silêncio, oito dezenas de mulheres decidiram contar como aconteceu o fato que marcou sua vida. 3) Do alto de sua ignorância, os seres humanos costumam achar que dominam a terra e todos os outros seres vivos. Nesses exemplos, temos os Pronomes suas e que retomando mulheres de três gerações e o fato, respectivamente; os Pronomes elas e sua antecipam oito dezenas de mulheres e os seres humanos, respectivamente. Estes são apenas alguns mecanismos de coesão, mas existem muitos outros, como veremos mais adiante. Vejamos agora a coesão num Período mais complexo:   Observemos os elementos de coesão presentes neste texto. No primeiro Período, temos o pronome que remetendo a amigos, que é o Sujeito dos verbos restam e são, daí a concordância, em pessoa e número, entre eles. Do mesmo modo, amigos é o Sujeito de foram, na oração seguinte; todos e os se relacionam a amigos. Já no segundo Período, em que o autor discorre sobre as amigas, os Pronomes algumas, outras, todas remetem a amigas; os numerais duas, três também remetem a amigas, que, por sua vez, é o Sujeito de datam, crêem, fariam, falam; nela retoma a expressão na mocidade, evitando sua repetição; que representa a língua. E, para retomar muita vez, o autor usou a expressão sinônima tal freqüência. Esses fatos representam mecanismos de coesão, assinalando relações entre os vocábulos do texto. Outros mecanismos marcam a relação de sentido entre os enunciados. Assim, os vocábulos mas (mas a língua que falam), e (e quase todos crêem na mocidae, e tal freqüência é cansativa) assinalam relação de contraste ou de oposição e de adição de argumentos ou idéias, respectivamente. Dessa maneira, por meio dos elementos de coesão, o texto vai sendo "tecido", vai sendo construído. A respeito do conceito de coesão, autores como Halliday e Hasan (1976), em obra clássica sobre Coesão Textual, que tem servido de base para grande número de estudos sobre o assunto, afirmam que a coesão é condição necessária, mas não suficiente, para que se crie um texto. Na verdade, para que um conjunto de vocábulos, expressões, frases seja considerado um texto, é preciso haver relações de sentido entra essas unidades (coerência) e um encadeamento linear das unidades lingüísticas presentes no texto (coesão). Mas essa afirmativa não é categórica nem definitiva, por algumas razões. Uma delas é que podemos ter conjuntos lingüísticos destituídos de elos coesivos que, no entanto, são considerados textos porque são coerentes, isto é, apresentam uma continuidade Semântica, como vimos no texto "Circuito Fechado", de Ricardo Ramos. Um outro bom exemplo da possibilidade de haver texto, porque há coerência, sem elos coesivos explicitados lingüisticamente, é o texto do escritor cearense Mino, em que só existem verbos.   Neste texto, a coerência é depreendida da seqüência ordenada dos verbos com os quais o autor mostra o dia-a-dia de um empresário. Verbos como lesou, burlou, explorou, safou-se ... transmitem um julgamento de valor do autor do texto em relação à figura de um empresário. Podemos constatar que "Como se conjuga um empresário" não precisou de elementos coesivos para ser considerado um texto. Por outro lado, elos coesivos não são suficientes para garantir a coerência de um texto. É o caso do exemplo a seguir: Finalizando, vale dizer que, embora a coesão não seja condição suficiente para que enunciados se constituam em textos, são os elementos coesivos que dão a eles maior legibilidade e evidenciam as relações entre seus diversos componentes. A coerência em textos didáticos, expositivos, jornalísticos depende da utilização explícita de elementos coesores. Mecanismos de Coesão São variadas as maneiras como os diversos autores descrevem e classificam os mecanismos de coesão. Consideramos que é necessário perceber como esses mecanismos estão presentes no texto (quando estão) e de que maneira contribuem para sua tecitura, sua organização. Para Mira Mateus (1983), "todos os processos de seqüencialização que asseguram (ou tornam recuperável) uma ligação lingüística significativa entre os elementos que ocorrem na superfície textual podem ser encarados como instrumentos de coesão." Esses instrumentos se organizam da seguinte forma: Coesão Gramatical Faz-se por meio das concordâncias nominais e verbais, da ordem dos vocábulos, dos conectores, dos Pronomes pessoais de terceira pessoa (retos e oblíquos), Pronomes possessivos, Demonstrativos, indefinidos, interrogativos, relativos, diversos tipos de numerais, Advérbios (aqui, ali, lá, aí), artigos definidos, de expressões de valor temporal. De acordo com o quadro antes apresentado, passamos a ver separadamente cada um dos tipos de Conexão gramatical, a saber, frásica, interfrásica, temporal e Referencial. ·        Coesão Frásica - este tipo de coesão estabelece uma ligação significativa entre os componentes da Frase, com base na concordância entre o nome e seus determinantes, entre o Sujeito e o verbo, entre o Sujeito e seus predicadores, na ordem dos vocábulos na oração, na regência nominal e verbal. Exemplos: 1)Florianópolis tem praias para todos os gostos, desertas, agitadas, com ondas, sem ondas, rústicas, sofisticadas. concordância nominal concordância verbal 2) A voz de Elza Soares é um patrimônio da música brasileira. Rascante, oclusiva, suingada, é algo que poucas cantoras, no mundo inteiro, têm. concordância nominal concordância verbal Com respeito à ordem dos vocábulos na oração, deslocamentos de vocábulos ou expressões dentro da oração podem levar a diferentes interpretações de um mesmo enunciado. Observe estas frases: a) O barão admirava a bailarina que dançava com um olhar lânguido. A expressão com um olhar lânguido, devido à posição em que foi colocada, causa ambigüidade, pois tanto pode se referir ao barão como à bailarina. Para deixar claro um ou outro sentido, é preciso alterar a ordem dos vocábulos. b) A moto em que ele estava passeando lentamente saiu da estrada.. A análise deste Período mostra que ele é formado de duas orações: A moto saiu da estrada e em que ele estava passeando. A qual das duas, no entanto, se liga o advérbio lentamente? Da forma como foi colocado, pode se ligar a qualquer uma das orações. Para evitar a ambigüidade, recorremos a uma mudança na ordem dos vocábulos. Poderíamos ter, então: Também em relação à regência verbal, a coesão pode ficar prejudicada se não forem tomados alguns cuidados. Há verbos que mudam de sentido conforme a regência, isto é, conforme a relação que estabelecem com o seu complemento. Por exemplo, o verbo assistir é usado com a Preposição a quando significa ser espectador, estar presente, presenciar. Exemplo: A cidade inteira assistiu ao desfile das escolas de samba. Entretanto, na linguagem coloquial, este verbo é usado sem a Preposição. Por isso, com freqüência, temos frases como: Ainda não assisti o filme que foi premiado no festival. Ou A peça que assisti ontem foi muito bem montada (ao invés de a que assisti). No sentido de acompanhar, ajudar, prestar assistência, socorrer, usa-se com proposição ou não. Observe: O médico assistiu ao doente durante toda a noite.Os Anjos do Asfalto assistiram as vítimas do acidente. No que diz respeito à regência nominal, há também casos em que os enunciados podem se prestar a mais de uma interpretação. Se dissermos A liquidação da Mesbla foi realizada no fim do verão, podemos entender que a Mesbla foi liquidada, foi vendida ou que a Mesbla promoveu uma liquidação de seus produtos. Isso acontece porque o nome liquidação está acompanhado de um outro termo (da Mesbla). Dependendo do sentido que queremos dar à Frase, podemos reescrevê-la de duas maneiras: ·        Coesão Interfrásica - designa os variados tipos de interdependência Semântica existente entre as frases na superfície textual. Essas relações são expressas pelos conectores ou operadores discursivos. É necessário, portanto, usar o conector adequado à relação que queremos expressar. Seguem exemplos dos diferentes tipos de conectores que podemos empregar: a) As baleias que acabam de chegar ao Brasil saíram da Antártida há pouco mais de um mês. No banco de Abrolhos, uma faixa com cerca de 500 quilômetros de água rasa e cálida, entre o Espírito Santo e a Bahia, as baleias encontram as condições ideais para acasalar, parir e amamentar. As primeiras a chegar são as mães, que ainda amamentam os filhotes nascidos há um ano. Elas têm pressa, porque é difícil conciliar amamentação e viagem, já que um filhote tem necessidade de mamar cerca de 100 litros de leite por dia para atingir a média ideal de aumento de peso: 35 quilos por semana. Depois, vêm os machos, as fêmeas sem filhote e, por último, as grávidas. Ao todo, são cerca de 1000 baleias que chegam a Abrolhos todos os anos. Já foram dezenas de milhares na época do descobrimento, quando estacionavam em vários pontos da costa brasileira. Em 1576, Pero de Magalhães Gândavo registrou ter visto centenas delas na baía de Guanabara. b) Como suas glândulas mamárias são internas, ela espirra o leite na água. c) Ao longo dos meses, porém, a música vai sofrendo pequenas mudanças, até que, depois de cinco anos, é completamente diferente da original. d) A baleia vem devagar, afunda a cabeça, ergue o corpanzil em forma de arco e desaparece um instante. Sua cauda, então, ressurge gloriosa sobre a água como se fosse uma enorme borboleta molhada. A coreografia dura segundos, porém tão grande é a baleia que parece um balé em câmara lenta. e) Tão grande quanto as baleias é a sua discrição. Nunca um ser humano presenciou uma cópula de jubartes, mas sabe-se que seu intercurso é muito rápido, dura apenas alguns segundos. f) A jubarte é engenhosa na hora de se alimentar. Como sua comida costuma ficar na superfície, ela mergulha e nada em volta dos peixes, soltando bolhas de água. Ao subir, as bolhas concentram o alimento num círculo. Em seguida, a baleia abocanha tudo, elimina a água pelo canto da boca e usa a língua como uma canaleta a fim de jogar o que interessa goela adentro. g) Várias publicações estrangeiras foram traduzidas, embora muitas vezes valha a pena comprar a versão original. h) Como guia de Paris, o livro é um embuste. Não espere, portanto, descobrir através dele o horário de funcionamento dos museus. A autora faz uma lista dos lugares onde o turista pode comprar roupas, óculos, sapatos, discos, livros, no entanto, não fornece as faixas de preço das lojas. i) Se já não é possível espantar a chicotadas os vendilhões do templo, a solução é integrá-los à paisagem da fé. (...) As críticas vêm não só dos vendilhões ameaçados de ficar de fora, mas também das pessoas que freqüentam o interior do templo para exercer a mais legítima de suas funções, a oração. j) Na verdade, muitos habitantes de Aparecida estão entre a cruz e a caixa registradora. Vivem a dúvida de preservar a pureza da Casa de Deus ou apoiar um empreendimento que pode trazer benesses materiais. l) A Igreja e a prefeitura estimam que o shopping deve gerar pelo menos 1000 empregos. m) Aparentemente boa, a infraestrutura da Basílica se transforma em pó em outubro, por exemplo, quando num único fim de semana surgem 300 mil fiéis. n) O shopping da fé também contará com um centro de eventos com palco giratório. Conectores: e (exemplos a,d,f) - liga termos ou argumentos. porque (exemplo a), já que (exemplo a), como (exemplos b, f) - introduzem uma explicação ou justificativa. para (exemplos a, i), a fim de (exemplo f) - indicam uma finalidade. porém (exemplos c, d), mas (e) , embora (g) , no entanto (h) - indicam uma contraposição. como (exemplo d) , tão ... que (exemplo d), tão ... quanto (exemplo e) - indicam uma comparação. portanto (h) - evidencia uma conclusão. Depois (a) , por último (a), quando (a), já (a), ao longo dos meses (c), depois de cinco anos (c), em seguida (f), até que (c) - servem para explicar a ordem dos fatos, para encadear os acontecimentos. então (d) - operador que serve para dar continuidade ao texto. se (exemplo i) - indica uma forma de condicionar uma proposição a outra. não só...mas também (exemplo i) - serve para mostrar uma soma de argumentos. na verdade (exemplo j) - expressa uma generalização, uma amplificação. ou (exemplo j) - apresenta um disjunção argumentativa, uma alternativa. por exemplo (exemplo m) - serve para especificar o que foi dito antes. também (exemplo n) - operador para reforçar mais um argumento apresentado. Ainda dentro da coesão interfrásica, existe o processo de justaposição, em que a coesão se dá em função da seqüência do texto, da ordem em que as informações, as proposições, os argumentos vão sendo apresentados. Quando isto acontece, ainda que os operadores não tenham sido explicitados, eles são depreendidos da relação que está implícita entre as partes da Frase. O trecho abaixo é um exemplo de justaposição. Há, neste trecho, apenas uma coesão interfrásica explicitada: trata-se da oração "Quando se irritava com alguém, não media palavras". Os demais possíveis conectores são indicados por Ponto e ponto-e-vírgula.

 

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