INTERFERÊNCIA ORTOGRÁFICA Além da diferença no grau de sinalização Fonética e das diferenças fonológicas (vogais, consoantes) entre os dois idiomas, temos a questão da interpretação oral da língua escrita. Isto é, com que sons devemos interpretar as letras e as palavras de um texto. Em primeiro lugar, a interpretação Fonética da ortografia em inglês apresenta diferenças em relação ao português. Em segundo lugar, e mais importante, a correlação entre ortografia e pronúncia em inglês é notoriamente irregular no âmbito das vogais. Quer dizer: o mesmo Grafema (letra) não corresponde sempre ao mesmo Fonema (som), isto é, não tem sempre a mesma interpretação, a mesma pronúncia. Para aquele que estuda inglês como língua estrangeira, que tem contato com textos mas não tem a oportunidade de contato freqüente com a língua falada, e que portanto não desenvolveu familiaridade com a forma oral do inglês, a interferência da ortografia na pronúncia das palavras é nociva e persistente. Em seu prefácio à peça Pygmalion (1916), o dramaturgo Bernard Shaw escreve: É importante lembrar que as pessoas por natureza acreditam mais naquilo que vêm do que naquilo que escutam. No estudo do inglês como língua estrangeira, entretanto, temos que nos acostumar a não acreditar no que vemos; e o ditado popular ver para crer precisa ser substituído por ouvir para crer. Em muitos casos e, especialmente com as vogais, a ortografia não serve como indicativo de pronúncia, chegando a ser enganosa e induzindo o aluno freqüentemente ao erro. Vejamos como exemplo o Grafema oo. boot - [buwt] book - [bUk] blood - [blâd] brooch - [browtsh] Imagine-se alguém que acabou de aprender a pronúncia da Palavra book /bUk/. Muito provavelmente ele irá pronunciar /blUd/ para blood /blâd/. Uma vez corrigido, bem poderá aplicar a nova regra e pronunciar /bât/ para boot /buwt/, ou talvez /mân/ para moon /muwn/, e assim por diante. Vejamos como segundo exemplo, as seis pronúncias do Grafema i. /iy/ - machine, elite, pizza /I/ - in, bit, his, liquor /ay/ - bite, hide, night /y/ - noise, toilet /â/ - pencil, bird, firm mudo - sovereignty, parliament Também o Grafema o pode ser interpretado de diferentes maneiras: /ow/ - so, go, global /o/ - off, dog /a/ - hot, dot /â/ - of, occur, carton, son /uw/ - do, to Outro exemplo notório de interferência da ortografia na pronúncia, é a pronúncia do sufixo _ed referente ao passado: play [pley] - played [pleyd] need [niyd] - needed [niydId] work [wârk] - worked [wârkt] A constante frustração para o aluno principiante de inglês é facilmente demonstrada também pelos exemplos abaixo: OBS.: O Fonema Vogal neutro do inglês conhecido por "schwa", tradicionalmente representado pelo símbolo //, é aqui representada por /â/, devido às limitações da linguagem HTML Embora a irregularidade seja mais acentuada no âmbito das vogais, também pode ser observada em consoantes. Vejamos o Grafema "ch", representando 3 Fonema diferentes: check - [tshék] chocolate - [tshaklât] - machine - [mâshiyn] Chicago - [shâkhagow] chaos - [kheyaz] characteristic - [khærâktârIstIk] Vejamos também como o Grafema "s" oferece 4 diferentes possibilidades de interpretação fonética: say - [sey] past - [phæst] basic - [beysIk] rose - [rowz] because - [bIkhóz] - casual - [khæzhuwâl] usually - [yuwzhuwâliy] television - [thélâvIzhân] island - [aylând] Exemplos não faltam para demonstrar a péssima correlação entre ortografia e pronúncia no inglês. Mazurkiewicz faz um interessante comentário a respeito. D’Eugenio inclusive encontra uma explicação para isso: O OUTRO LADO DA MOEDA Não é apenas a pronúncia que torna-se difícil para os estrangeiros, estudantes de inglês, mas também a ortografia se constitui num verdadeiro problema para todos aqueles que falam inglês como língua mãe, especialmente para as crianças em escola de primeiro grau. Nos países de língua inglesa todo jovem cedo defronta-se com esta aparente falta total de lógica no sistema ortográfico da língua cujos sons ele já tem assimilados. Não é, pois, coincidência que, nos países de língua inglesa, sejam tradicionais e populares os concursos denominados "spelling bee", em que os contendores desafiam-se para ver quem consegue melhor soletrar palavras de rara ocorrência que lhes são transmitidas oralmente. Concursos de spelling bee existem e fazem parte da cultura apenas em países de língua inglesa. Vejam o que o norte-americano Patrick Brown escreveu em julho de 2003: O problema tem sido alvo de iniciativas diversas. Por volta de 1960, por exemplo, foi criado na Inglaterra um alfabeto fonético de 44 caracteres para facilitar o aprendizado da língua escrita. O ITA (Initial Teaching Alphabet) não passou de uma das inúmeras tentativas de se encontrar uma solução para o problema. Mesmo Chomsky e Halle, que defendem um Ponto de vista diferente quando escrevem que também admitem que Mais adiante os mesmos autores acrescentam: CONCLUSÃO A interferência negativa da ortografia é um problema sério; uma das principais dificuldades para estudantes de inglês em geral. Esta desconcertante falta de correlação entre ortografia e pronúncia é uma das principais características da língua e serve como argumento contra aquilo que ainda predomina no ensino de inglês como língua estrangeira: preocupação excessiva com materiais impressos e contato prematuro com a língua na sua forma escrita. Serve também como forte argumento em favor de abordagens baseadas em assimilação natural ao invés de estudo formal da língua, para se alcançar fluência em inglês. Por outro lado, apesar do alto grau de irregularidade entre a ortografia e a pronúncia do inglês, encontra-se regularidade na interpretação de consoantes e é até mesmo possível se estabelecer algumas regras de interpretação de vogais em palavras monossilábicas.