Movimento russo de arte abstrata que surge por volta de 1913, mas cuja sistematização teórica data de 1925 e do manifesto Do cubismo ao futurismo ao suprematismo: o novo realismo na pintura, escrito por Kazimir Malevich (1878-1935) em colaboração com o poeta Vladímir Maiakóvski (1894-1930). O movimento está diretamente ligado ao seu criador, Malevich, e às pesquisas formais levadas a cabo pelas vanguardas russas do começo do século, o raionismo de Mikhail Larionov (1881-1964) e Natalia Goncharova (1881-1962) e o construtivismo de Vladimir Evgrafovic Tatlin (1885-1953). Nesse contexto, o suprematismo de Malevich vai defender uma arte livre de finalidades práticas e comprometida com a pura visualidade plástica. Trata-se de romper com a idéia de imitação da natureza, com as formas ilusionistas, com a luz e cor naturalistas - experimentadas pelo impressionismo - e com qualquer referência ao mundo objetivo, que o cubismo de certa forma ainda alimenta. Se isso é verdade, Malevich ainda fala em "realismo", e o faz a partir das sugestões do místico e matemático russo P.D. Ouspensky, que defende haver por trás do mundo visível um outro mundo, espécie de quarta dimensão, além das três a que nossos sentidos têm acesso. O suprematismo representaria essa realidade, esse "mundo não-objetivo", referido a uma ordem superior de relação entre os fenômenos - espécie de "energia espiritual abstrata" -, que é invisível mas nem por isso menos real.
Se a arte de Malevich possui pretensão espiritual, ela não se confunde com a defesa do espiritual na arte que faz Wassily Kandinsky (1866-1914), que o define como "expressão da vida interior do artista". Malevich, ao contrário, se detém na pesquisa metódica da estrutura da imagem, que coincide com a busca da "forma absoluta", da molécula pictórica. Como ele mesmo afirma no manifesto de 1915: "Eu me transformei no zero da forma e me puxei para fora do lodaçal sem valor da arte acadêmica. Eu destruí o círculo do horizonte e fugi do círculo dos objetos, do anel do horizonte que aprisionou o artista e as formas da natureza. O quadrado não é uma forma subconsciente. É a criação da razão intuitiva. O rosto da nova arte. O quadrado é o infante real, vivo. É o primeiro passo da criação pura em arte".
As obras suprematistas, vistas pela primeira vez na exposição coletiva A última exposição de quadros futuristas 0.10 (Zero. Dez), realizada em dezembro de 1915 em São Petesburgo, evidenciam a nova proposta pictórica: formas geométricas básicas - quadrado, retângulo, círculo, cruz e triângulo - associadas a uma pequena gama de cores. A austeridade das formas puras e a simplicidade quase hierática da geometria suprematista se apresentam integralmente em obras, hoje célebres, como Quadrado Preto Suprematista (1914-5), Suprematismo: realismo pictórico de um jogador de futebol (1915), Quadrado vermelho: realismo pictórico de uma camponesa em duas dimensões (1915), Quadrado Branco Sobre Fundo Branco (1918). Desde 1910, a produção de Malevich encontra-se afinada com as vanguardas européias - com o cubismo das obras iniciais de Pablo Picasso (1881-1973), com as pinturas de Paul Cézanne (1839-1906), Fernand Léger (1881-1955), André Derain (1880-1954) e também com o futurismo -, combinadas em sua obra com fontes folclóricas e populares russas, e com a experimentação artística russa que tem em Maiakóvski sua liderança maior. De uma fase inicial pós-impressionista, sua pintura se dirige às formas tubulares de Léger, à fragmentação cubista e ao trato futurista da imagem (vide O Amolador de Facas, 1912). Com o movimento suprematista, Malevich adere à abstração e ao compromisso com a pesquisa metódica da forma pura, evidenciada em séries como Branco sobre Branco. Após 1918, quando anuncia o fim do suprematismo por considerar o esgotamento do projeto, volta-se preferencialmente ao ensino, à escrita e à construção de modelos tridimensionais que tiveram grande influência sobre o construtivismo.
Ainda que o rótulo suprematismo se confunda com o nome de seu mentor, sua influência sobre outros artistas russos foi notável - lembremos, por exemplo, a pintora Olga Vladimirovna Rozanova (1886-1918) -, assim como sua penetração na Europa, marcando as artes visuais de modo geral: a pintura, a arquitetura, o mobiliário, o design, a tipografia etc. No Brasil, parte da obra de Malevich esteve presente na 22ª Bienal Internacional de Artes Plásticas, de 1994.
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