De volta aos assuntos mundanos: essa escultura de Henry Moore, pesando três toneladas, foi roubada do parque do museu onde ficava instalada em Much Hadham, Hertfordshire, Inglaterra. A peça mede 3 metros por dois de altura e foi içada por três homens com um guindaste para um caminhão na quinta-feira à noite. "Figura Reclinando" valeria, segundo especialistas consultados pelo jornal The Independent, mais de 4 milhões de euros. Em termos artísticos, esse exemplar de arte modernista é classificado como "excepcional" e de preco "incalculável". Um dos mais importantes escultores do século XX, Moore tem outras 47 obras inscritas na lista de desaparecimentos do governo britânico. Nenhuma, no entanto, tem as dimensões da que foi roubada, que é toda em bronze. A polícia trabalha com a hipótese de que já tenha sido derretida e vendida a peso, mas há pistas que apontam também para uma ação por encomenda, com a escultura sendo embalada e despachada de navio imediatamente após a retirada. Na semana retrasada, outra obra de Moore, "Forma Interna", de 1,5 toneladas, teve a segurança reforçada no museu onde se encontra na Nova Zelândia depois que a segurança recebeu um aviso de que seria roubada.
O desaparecimento e a provável destruição dessa obra não chamam tanto a atenção quanto a audácia dos ladrões, que sabiam inclusive que as câmeras de vigilância podiam detectá-los, mas não impedir que fizessem o roubo. De certa forma, inclui a Grã-Bretanha no mesmo capítulo vergonhoso no qual o Brasil comparece com o desaparecimento da Taça Jules Rimet, surrupiada da sede da Confederação Brasileira de Futebol, no Rio, e depois derretida para que o ouro fosse vendido a peso. Se agora foi o volume o dado curioso no roubo, na época foi o fato de que, para enganar os ladrões, a CBF havia deixado a cópia no cofre e a taça verdadeira exposta na vitrine que acabaria sendo arrombada.
"Figura Reclinando" também se insere em um catálogo exremamente preocupante, que é o de obras de importância transcedental sob o risco de definitivamente desaparecer. Esse hiato priva a civilização daquelas manifestações de genialidade que o dom artístico consegue traduzir e dar contornos visíveis, palpáveis. Faz companhia agora, quase certamente, à "O Grito", de Edward Munch, roubado de um museu na Noruega, à luz do dia. Nesse caso, infelizmente, já se tem certeza que a tela, uma das mais importantes do mundo, foi efetivamente destruída para eliminar a prova do crime quando a investigação chegou perto dos responsáveis.